A vida que Fillipo levava era a inveja de todos. Todos consideravam a sua vida maravilhosa. Ele era bonito, inteligente, com um ótimo emprego, carro do ano... Ele tinha tudo o que queria. Mas Fillipo era infeliz. Ele achava sua vida ridícula e medíocre. Ele não gostava de viver. Ele não sorria.
Em uma certa sexta-feira chuvosa, saindo tarde do trabalho, ele atravessou uma ponte deserta, quando o farol do carro refletiu em um corpo no chão. “Será que atropelei alguém e nem percebi?” Pensou ele. Ele saiu do carro, para ver o que tinha acontecido, e se deparou com uma cena estranha.
Era uma garota. Estava deitada no chão, com os olhos fechados e um sorriso no rosto. Tinha lá pelos seus 20 anos, vestia um lenço na cabeça. Fillipo ficou paralisado com a cena, mas a chuva gelada o tirou do transe, e ele falou:
- Ei, moça, aconteceu alguma coisa?
Ela gargalhou e abriu os olhos, olhou profundamente para ele. Ela levantou e disse:
-Estou vendo que você é um que não aproveita a vida. Tomar chuva é tão bom...
Fillipo estava começando a achar que aquela menina era louca.
-Moça, olhe, está muito frio, você vai pegar uma pneumonia, sei lá. Quer que eu te leve para casa? – Fillipo não sabia de onde estava surgindo essa bondade, mas ele sentia que devia proteger aquela garota estranha, que parecia tão frágil.
-Tudo bem, é mais rápido. Precisava de um banho mesmo. - A menina entrou no carro. “Que bizarra” Fillpo pensou consigo mesmo. Mas a curiosidade ardia dentro dele. Entrou no carro e nem se preocupou em ligá-lo. Começou a fazer muitas perguntas:
-Qual o seu nome? De onde você é? Onde mora? Porque estava deitada no chão tomando chuva?
Ela riu – Calma... Irei responder a tudo. Meu nome é Antonella. Eu moro a duas quadras daqui. Estava no chão para sentir a chuva. É revigorante.
-Sentir a chuva? Por quê?
-Ora, para aproveitá-la. Será que eu estarei viva para ver outra tempestade de novo? – Seus olhos, de repente, ficaram tristes.
-Mas você não é muito jovem pra pensar em morte? – Perguntou Fillipo, que estava achando aquela conversa muito estranha.
-Ah, você não sabe, é claro. Tenho câncer. Leucemia. Triste não? Recebi um presente tão lindo que é a vida, e vou ter tão pouco tempo para aproveitá-la.
-Sinto muito – E ele sentia mesmo. Ele não a conhecia, mas já sentia algo especial.
-Ah, não é tão ruim. Só vou ter que viver toda uma vida bem mais rápido que o normal. Ei, você nem ligou o carro. Me leve em casa e me conte de você.
Fillipo contou um pouco de sua vida a ela, e ela ouviu interessada. Logo chegaram à frente da casa dela. Fillipo a olhou nos olhos e sentiu algo. Estranho, forte, confuso, arrebatador. Ele queria abraçá-la e nunca mais soltá-la, protegê-la de todos. Ela sustentou seu olhar, com a mesma intensidade. Não se sabe quanto tempo eles ficaram nessa troca, mas parecia a mais bela das eternidades. De repente, ela riu, e, em vez do encanto quebrar, só aumentou.
-Tenho que ir. Amanhã tenho quimioterapia bem cedo. Muito obrigada e boa noite. – Ela saiu do carro.
Fillipo ficou se perguntando, de onde surgiu essa garota. Por que, ele se sentia tão ligado a alguém que nunca viu antes? Ele ficou várias horas na frente daquela casa suburbana sem conseguir colocar o pé no acelerador e só pensando na pequena Antonella.
Ela era tão incrível. Seu perfume era agradável como as Rosas vermelhas da Casa das Rosas. Seu sorriso, o mais resplandecente que já pairou sobre a Terra. Maia havia algo errado, o olhar de Antonella, era bonito e tinha muito brilho, mais era um olhar distante, como se a sombra a morte já pairasse sobre aquele lindo corpo juvenil.
Chegando em casa, no meio da noite, Fillipo não conseguia pensar em outra coisa além de Antonella. Ele não dormia direito, não se alimentava. Ele só precisava de uma coisa. Ele a queria mais do que qualquer outra coisa no mundo, como se ela fosse o ar, como se, sem ela, não existisse mais vida.
Então, sem nenhuma explicação racional pra isso, o jovem resolveu voltar para a casa de sua pequena amada. Chegando lá, ele a vê indo para a seção de quimioterapia e se dispõe a levá-la.
- Não, Obrigada. - disse Antonella. Prefiro ir de metrô. Sinto-me mais próxima das pessoas. É bom saber que Deus ainda acredita nas pessoas.
- Por que você diz isso?
- Por que cada vez que nasce uma criança, é um sinal que Deus ainda acredita na humanidade, vamos logo senão eu me atraso.
Os passos de Antonella eram mais leves que as folhas que se arrastavam na rua. E a sua delicadeza a transportava cada vez mais para perto do coração de Fillipo.
Ao chegarem ao hospital e iniciada a seção, Fillipo percebeu o quão era doloroso aquele processo. Ele estava desesperado. Ele queria ajudá-la, mais não sabia como.
A quimioterapia acabou. Ela estava fraca e debilitada. Fillipo a ajudou a sair e perguntou o que poderia fazer para ajudá-la. Ela olhou profundamente para ele e pediu:
- Fique hoje comigo. Preciso fazer tantas coisas hoje. Muitas... Gostaria que você estivesse comigo... Só hoje.
Fillipo aceitou na hora. Ligou para o escritório e disse que não iria hoje. Ele saiu do hospital com Antonella, e fez todas as suas vontades, mal sabendo que eram as últimas.
Eles andaram de bicicleta no parque, tomaram sorvete, riram, olharam as nuvens. Choveu naquela tarde. E os dois andaram de mãos dadas na chuva. No fim do dia, assistiram o pôr-do-sol naquela ponte em que se conheceram. Estavam os dois, debruçados no parapeito, quando Antonella virou, segurou o rosto de Fillipo e o beijou. Tão ternamente, mas com tanto desejo, e uma pontada de dor. Eles se separaram e ela sorriu:
- Agora tenho certeza. Certeza que eu te amo.
-Eu tenho essa certeza em mim desde quando te vi. Eu te amo. Pra Sempre.
Antonella chorou silenciosamente e pediu que Fillipo a levasse para casa. Eles foram. Antonella pediu a ele que entrasse com ela, e Fillipo foi. Antonella o beijou na porta de seu quarto, dessa vez com um desejo oculto e profundo. Fillipo entedeu o recado, fechou a porta do quarto, para manter entre os dois, a melhor noite de suas vidas.
Quando Fillipo abriu os olhos na manhã seguinte, não estava acreditando na guinada incrível que sua vida deu nesses dois dias. Ele sorriu mais do que toda a sua vida. Ele virou para olhar a sua amada em seus braços, e sua alma congelou. Ela estava mais pálida que o normal, mais fraca que o normal. Ele entrou em desespero. Ele a sacudiu para acordá-la. Ela abriu os olhos, vermelhos, e disse:
- Meu amor, me perdoe. Eu queria viver, só pra você. Você foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Eu te amo. – Ela usou todas as suas forças para se levantar e beijá-lo. Fillipo a levou para o hospital em seguida, mas algo nele já dizia que estava acabado. E estava. Os médicos vieram trazer a notícia que Antonella já não existia mais.
Fillipo ficou desconcertado, ele nem quis conhecer a família de Antonella que estava no hospital. Ele saiu correndo e dirigiu como um louco para a ponte. E lá chorou, tudo o que ele podia. Mas, depois de muito tempo chorando, ele levantou a cabeça e se lembrou do sorriso da amada. E levou essa lembrança para sempre com ele.
Fillipo se tornou uma pessoa diferente. Ele doava, todo mês, metade de seu salário para o hospital do câncer, e começou a trabalhar de voluntário lá. Mas a mudança mais significativa foi que ele começou a sorrir e amar a vida como nunca tinha feito antes. E toda vez que chovia, ele ia até a ponte, deitava-se no chão, e sentia a chuva. E naquele momento, ele sabia, que Antonella estava com ele. Para Sempre.
Escrevi esse conto com a Sara, para o trabalho de português. Comentem
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